Por dentro de um rodeio: como um festival sertanejo estruturou uma agenda ESG completa

24/09/2026

Todo evento de grande porte convive com desafios semelhantes: como receber e cuidar de multidões, como lidar com o que é produzido e sobra depois que o público vai embora, como garantir que quem trabalha e quem consome tenha uma experiência segura. No Jaguariúna Rodeo Festival (JRF), esses desafios fazem parte do planejamento e se transformam em iniciativas concretas.

O JRF acontece nos dias 18, 19, 25 e 26 de setembro, em Jaguariúna, interior de São Paulo. A expectativa é reunir 150 mil pessoas e movimentar mais de R$ 200 milhões na economia local; pela primeira vez, os ingressos de todos os setores devem se esgotar antes da primeira noite. É um evento de escala, gente vindo de todos os estados do país, hotéis lotados, comércio girando. E é dentro dessa escala que o Grupo DVT, proprietário do evento e responsável por toda a operação, decidiu estruturar uma agenda de ESG que vai muito além do que costuma se ver em outros festivais, especialmente os sertanejos.

Não se trata de uma ação isolada. É um conjunto: acessibilidade, gestão de resíduos, acolhimento psicológico, alimentação para restrições alimentares, qualificação de mão de obra, bem-estar animal e inclusão social, tudo planejado internamente, com profissionais especializados em cada uma dessas frentes. Dificilmente algum outro festival do gênero articula tantas frentes ao mesmo tempo.

A acessibilidade é uma das frentes desse trabalho. Uma central dentro da praça de alimentação credencia clientes PCDs e seus acompanhantes. Uma rota acessível interliga todo o evento e as ativações, com plataformas elevadas em todos os setores e estacionamento exclusivo. Em todos os shows do palco principal, a plataforma Beeplay oferece intérprete de Libras; na etapa do rodeio do dia 25, existe também o recurso da audiodescrição, voltado a pessoas cegas ou com baixa visão. Há ainda um kit sensorial para clientes com espectro autista (TEA) e uma equipe de monitores treinada especificamente para esse atendimento.

Do lado ambiental, o festival monta uma central de triagem e reciclagem dentro do próprio evento, com destinação final dos resíduos identificada e catalogada, não apenas coletada. A iniciativa integra o programa Universo Eco, feito em parceria com o Instituto de Compromisso com o Desenvolvimento Humano (ICDH), organização do Grupo DVT que promove projetos sociais, culturais e educacionais pelo Brasil.

Há também um espaço de acolhimento funcionando todos os dias de evento, das 19h às 7h, no Galpão da Red Eventos. Ali, uma equipe oferece escuta qualificada e suporte emocional ou jurídico a quem sofrer violência, assédio, preconceito ou crise de ansiedade, feito também em parceria com o ICDH. Um segundo espaço é dedicado a menores em situação de vulnerabilidade ou que se percam durante o evento.

Um dos pontos mais singulares da edição é a aproximação com a comunidade autista. No dia 25, um grupo do Centro do Autismo de Jaguariúna vai assistir à prova de rodeio na arena principal, em parceria com o ICDH, e uma criança autista abre a prova dos três tambores naquele dia. No dia anterior, 500 alunos da rede pública de Jaguariúna visitam as áreas internas do evento e participam de uma prova batizada de "Tamborzinho", na mesma arena.

O bem-estar animal ganha um capítulo próprio. Em parceria com a UNIFAJ, o festival promove um workshop sobre esportes equestres, com aulas sobre recepção de animais, atendimento emergencial e provas equestres, transmitido ao vivo pelo canal da universidade no YouTube, um formato acessível também a quem não está em Jaguariúna.

A preparação da operação passa por três treinamentos que raramente aparecem em releases de festival, mas que sustentam tudo o que acontece na frente do público: uma conversa voltada à preparação dos ambulantes, sobre atendimento, higiene e hospitalidade; um treinamento em primeiros socorros baseado na NR-01, feito com a equipe médica do Hospital de Jaguariúna e o Corpo de Bombeiros, para 30 lideranças de setores de atendimento; e um treinamento de protocolos operacionais e emergenciais para toda a equipe de operações.

Essa agenda não nasce do zero em 2026. O Grupo DVT já opera com a certificação ISO 20121, norma internacional para sistemas de gestão de eventos sustentáveis, aplicada também no Camarote Bar Brahma. E o mesmo repertório aparece em outra frente do grupo: a Cooler DVT, sua agência criativa, foi finalista do Prêmio Live 2026 com "H2&O: A Dupla da Moderação", campanha desenvolvida para a plataforma de consumo responsável da Ambev na Festa do Peão de Barretos, também com apoio do ICDH. "Nenhuma dessas ações está aqui por acaso ou como um adendo à operação em JRF. Trazer bem-estar animal, acessibilidade e inclusão para dentro do sertanejo, ou seja, testar o que ainda não é padrão no setor, é parte da nossa cultura. É a mesma inquietação que já nos levou a criar outros formatos e move o grupo como um todo", diz Deborah Fornazari, CGO do Grupo DVT.

"Jaguariúna se consolida como um dos principais destinos do entretenimento no interior do país", diz Gui Marconi, vice-presidente do Grupo DVT. Para ele, a cidade oferece hoje "cada vez mais atrações para além do evento, como lojas e restaurantes temáticos que são referências nacionais", um sinal de que o festival também movimenta a cidade fora dos dias de shows.

É esse o argumento de fundo da pauta: entretenimento ao vivo em grandes proporções, quando bem planejado, não termina no ingresso vendido. Ele movimenta uma cadeia e gera valor de verdade: ao turismo, comércio, universidades, hospitais, Corpo de Bombeiros, escola pública, organizações da sociedade civil, ambulantes, colaboradores. Ao lado dos negócios, uma experiência que é também um ativo de impacto social.

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